Na oncologia pediátrica o tratamento é conduzido por uma equipe, e a cirurgia é uma peça dessa equipe. Algumas vezes a principal, outras vezes não. Entender esse desenho ajuda a família a saber a quem perguntar o quê, e reduz uma parte da angústia que vem simplesmente de não compreender a diferença de papéis.
O que me levou até aqui
Não escolhi a cirurgia pediátrica oncológica de antemão. Eu a encontrei durante a formação em cirurgia pediátrica, e algo naquilo me chamou de um jeito que não passou.
Depois veio o aperfeiçoamento no Instituto Nacional de Câncer — INCA, onde tive a formação técnica na área de cirurgia pediátrica oncológica.
Retirar o tumor com as próprias mãos
Vou dizer com franqueza o que me encanta na especialidade, porque é uma coisa quase física.
Há situações em que o tumor pode ser retirado. Não reduzido, não controlado: retirado, com as próprias mãos. Você entra, identifica, disseca, remove. E aquilo que ameaçava uma criança deixa de estar ali.
É difícil descrever o que isso significa para quem opera. Poucas áreas da medicina oferecem uma ação tão direta e tão imediatamente ligada ao resultado. É a parte da minha profissão que continua me impressionando depois de mais de dez anos.
Mas raramente é só a cirurgia
Dito isso, seria irresponsável deixar essa imagem sozinha na sua cabeça — porque ela não é a regra.
Na maioria dos casos, o tratamento é compartilhado. A quimioterapia e a radioterapia fazem parte essencial do percurso, e frequentemente é a combinação delas com a cirurgia que define o resultado. Há tumores em que a quimioterapia vem antes, para tornar a cirurgia possível ou mais segura. Há situações em que a cirurgia não é o tratamento principal.
E há casos em que meu papel é outro: é dar conforto e viabilizar o tratamento. O implante de um cateter para quimioterapia, por exemplo, não retira tumor nenhum — mas evita que uma criança seja puncionada dezenas de vezes ao longo de meses. Não é um procedimento menor. Para aquela família, ele muda a experiência inteira do tratamento.
Nenhuma dessas funções é secundária. Elas são partes diferentes do mesmo cuidado.
O que as famílias costumam não saber
Esta é a parte prática do texto, e a que mais ajuda quem está começando esse caminho.
A biópsia geralmente é cirúrgica — e é ela que define tudo. Antes de qualquer tratamento, é preciso saber exatamente com o que se está lidando. Frequentemente é o cirurgião quem obtém esse material, e o diagnóstico definitivo vem do exame anatomopatológico. Por isso a primeira intervenção muitas vezes não é o tratamento: é o que permite planejá-lo.
O cateter viabiliza a quimioterapia. Port-o-cath, Hickman, PICC. Implantar um cateter venoso central é procedimento cirúrgico e costuma ser um dos primeiros passos do tratamento.
O momento da cirurgia é uma decisão de equipe. Operar antes, depois ou entre ciclos de quimioterapia não é escolha isolada do cirurgião. É definida em conjunto com o oncologista pediátrico, com base no tipo de tumor, na resposta ao tratamento e nos exames de imagem.
Você vai ter mais de um médico — e isso é bom. Oncologista pediátrico, cirurgião, radiologista, patologista, radioterapeuta, equipe de enfermagem. Parece confuso no começo, e é. Mas essa multiplicidade é o que garante que cada decisão seja tomada por quem mais entende daquele pedaço. Quando não souber a quem perguntar, pergunte a qualquer um: faz parte do nosso trabalho encaminhar a dúvida para o lugar certo.
Cada família ensina alguma coisa
Se você me perguntar o que mudou minha prática ao longo dos anos, não vou conseguir apontar um curso ou um serviço.
A mudança acontece o tempo todo, e vem das famílias. Cada uma chega de um jeito, reage de um jeito, pergunta o que a anterior não perguntou. Uma quer todos os detalhes; outra precisa de silêncio antes de conseguir ouvir. Uma pergunta sobre prognóstico na primeira consulta; outra leva semanas até formular a pergunta.
É um aprendizado contínuo, e é o que impede que esse trabalho vire rotina. Depois de anos, ainda saio de consultas tendo aprendido algo que não sabia.
A linha tênue
Há um momento nesse trabalho que não fica mais fácil com o tempo: o de dar a notícia.
Existe uma linha muito estreita ali. De um lado, o risco de oferecer uma esperança que os fatos não sustentam — o que parece bondade no consultório e vira sofrimento maior depois. Do outro, o risco de ser tão direto que se destrói a esperança de uma família que ainda vai precisar dela para atravessar meses difíceis.
Não existe fórmula. O que eu tento fazer é simples de dizer e difícil de executar: ser verdadeiro. Dizer o que se sabe, dizer o que ainda não se sabe, e não preencher o segundo com adivinhação em nenhuma das duas direções.
Uma família tem direito à verdade sobre o filho. E, na maior parte das vezes, a verdade comporta esperança — não porque a suavizamos, mas porque a medicina avançou muito, e boa parte dos tumores da infância tem hoje um cenário melhor do que o imaginário popular sugere.
É nessa margem estreita que se trabalha. E é dela que trato cada vez que uma família se senta na minha frente.
Dúvidas frequentes
O que é um cirurgião oncológico pediátrico?
É o cirurgião pediatra com aperfeiçoamento no tratamento cirúrgico dos tumores da infância. Atua junto ao oncologista pediátrico e ao restante da equipe, realizando biópsias, implantes de cateter e ressecções tumorais.
Meu filho vai ser operado logo após o diagnóstico?
Nem sempre. Em muitos casos, a quimioterapia vem antes, para reduzir o tumor e tornar a cirurgia mais segura. O momento é definido em equipe, conforme o tipo de tumor e a resposta ao tratamento.
Por que tantos médicos diferentes?
Porque o tratamento oncológico infantil é multidisciplinar. Cada profissional cuida de uma parte, e as decisões importantes são tomadas em conjunto.
Todo tumor na infância é câncer?
Não. Muitas massas identificadas em crianças são benignas. A investigação existe justamente para definir isso — e a maioria das famílias que passa por ela recebe uma boa notícia.
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Escrito por Dr. Fábio Augusto Albanez Souza, cirurgião pediatra · CRM-DF 15431 · RQE 13309 · sobre o Dr. Fábio. Este conteúdo é informativo e não substitui a consulta médica.